Eu nunca vou esquecer minha primeira viagem de cicloturismo. Saí de Paraty rumo a Ubatuba, 70km pela Rio-Santos, com uma mochila pesada demais, roupa errada e zero experiência em pedalar longas distâncias. Nos primeiros 20km achei que ia morrer. Nos últimos 20km, com o sol se pondo sobre o mar e as pernas já acostumadas com o ritmo, entendi por que tanta gente se apaixona por isso.
Cicloturismo é viajar de bicicleta. Simples assim. Pode ser uma viagem de um dia entre duas cidades, uma aventura de uma semana cruzando um estado ou até uma expedição de meses pelo país. O que muda é o nível de preparação, mas o espírito é o mesmo: conhecer lugares no seu próprio ritmo, com o vento na cara e a liberdade de parar onde quiser.
Se você está pensando em fazer sua primeira viagem de bike, esse guia vai te poupar de cometer os mesmos erros que eu cometi.
O que é cicloturismo (e o que não é)
Cicloturismo não é competição. Não é sobre velocidade, tempo ou Strava. É sobre a jornada. Você pedala no seu ritmo, para pra tomar um café na padaria de beira de estrada, tira foto de uma paisagem bonita e chega no destino quando chega.
Também não precisa ser radical. Muita gente imagina cicloturismo como aqueles caras pedalando 200km por dia com a bike carregada de alforjes. Isso existe, mas a maioria dos cicloturistas faz viagens mais tranquilas, de 40 a 80km por dia, dormindo em pousadas ou campings.
Os tipos de cicloturismo
- Cicloturismo leve (bikepacking): você leva o mínimo, usa bolsas compactas no quadro e dorme em pousadas. Ideal pra iniciantes
- Cicloturismo tradicional: alforjes nas laterais, equipamento de camping, mais autonomia. Pra quem já tem experiência
- Cicloturismo urbano: conhecer cidades pedalando, de hostel em hostel. Menos aventura, mais cultura
- Cicloturismo de longa distância: semanas ou meses na estrada. Pra quem já fez várias viagens menores
Minha primeira viagem: o que deu certo e o que deu errado
Vou compartilhar meus erros pra você não repetir. Na minha viagem Paraty-Ubatuba, fiz quase tudo errado e ainda assim foi uma das melhores experiências da minha vida. Imagina se eu tivesse feito certo.
O que deu errado:
- Mochila nas costas: erro gravíssimo. Depois de 30km minhas costas estavam destruídas. A mochila deveria estar na bike, não em mim
- Sem bermuda de ciclismo: eu pedalei de bermuda de academia. Meu traseiro ficou assado por uma semana. Bermuda acolchoada é obrigatória
- Sem estudar o percurso: peguei uma subida de 8km que eu não esperava. Quase desisti ali
- Pouca água: levei uma garrafinha de 500ml. Pra 70km no sol, eu precisava de pelo menos 2 litros
- Sem kit de reparo: furei o pneu no km 45. Sorte que um ciclista que passava me emprestou uma câmara
O que deu certo:
- Escolhi um trecho com paisagem incrível: a Rio-Santos entre Paraty e Ubatuba é de tirar o fôlego
- Saí cedo: pedalei a maior parte do percurso antes do sol ficar forte
- Reservei pousada no destino: saber que tinha uma cama me esperando tirou a pressão
Equipamentos que você precisa pra começar
Não precisa comprar tudo de uma vez. Vou separar entre o que é obrigatório e o que pode esperar.
Obrigatório pra primeira viagem
- Bicicleta em bom estado: não precisa ser a melhor bike do mundo, mas precisa estar revisada (freios, câmbio, pneus). Se você está pensando em uma bike boa pra asfalto, confira nosso guia da melhor bicicleta para pedalar no asfalto
- Capacete: não negocie isso. Confira as opções no nosso ranking do melhor capacete para ciclista
- Kit de reparo: câmara de ar reserva, bomba portátil, espátulas pra pneu, multiferramenta
- Bermuda acolchoada: sua relação com o selim vai durar horas. Proteja-se
- Água: pelo menos 2 litros. Caramanhola no quadro + garrafa na mochila
- Protetor solar e óculos: sol na estrada é implacável
- Documento e dinheiro: nem todo lugar aceita cartão
Importante, mas pode esperar
- Alforjes ou bolsas de bikepacking: na primeira viagem, uma mochila leve no bagageiro dá conta. Depois você investe em bolsas próprias
- Farol dianteiro e traseiro: obrigatório se você vai pedalar à noite. Pra viagens diurnas, refletores bastam
- GPS ou ciclocomputador: o celular com Google Maps funciona bem no começo
- Roupas técnicas: camisa de ciclismo, luvas, manguitos. Fazem diferença, mas não impedem a viagem se você não tiver
Bike recomendada pra cicloturismo
Se você está montando ou atualizando sua bike pra cicloturismo, recomendo um modelo aro 29 com pneus mais largos (que absorvem melhor as irregularidades) e suporte pra bagageiro.

Pra quem quer mais opções de aro 29, temos o ranking das melhores bicicletas aro 29 com análise detalhada.
Melhores rotas de cicloturismo no Brasil
O Brasil tem rotas incríveis pra pedalar. Vou listar as que eu já fiz ou que amigos cicloturistas me recomendaram:
Pra iniciantes (1 a 2 dias)
- Paraty a Ubatuba (RJ/SP): 70km pela Rio-Santos. Paisagem absurda, mas tem subidas. Dá pra fazer em um dia ou dividir em dois
- Circuito das Águas (MG): entre São Lourenço, Caxambu e Lambari. Rotas de 30 a 60km por estradas tranquilas entre montanhas
- Litoral catarinense: de Florianópolis a Garopaba, 80km por estradas costeiras com visual incrível
- Ciclovia Rio Pinheiros (SP): pra quem quer começar em ambiente 100% seguro. 22km de ciclovia dedicada
Pra intermediários (3 a 5 dias)
- Estrada Real (MG): trechos entre Ouro Preto, Tiradentes e São João del Rei. Ladeiras pesadas, mas a história e a gastronomia compensam
- TransBrasil Bike Route: trechos organizados com suporte. Boa opção pra quem quer cicloturismo com estrutura
- Serra Gaúcha (RS): de Bento Gonçalves a Caxias do Sul por rotas do vinho. Paisagem européia no interior do Brasil
Pra experientes (7+ dias)
- Carretera Austral (Chile): não é no Brasil, mas muitos brasileiros fazem. 1.200km de natureza selvagem na Patagônia
- BR-101 pelo litoral nordestino: de Salvador a Recife, passando por praias paradisíacas. Cerca de 850km
- Transpantaneira (MS): 150km de estrada de terra no coração do Pantanal. Paisagem e fauna únicas
Planejamento da viagem: passo a passo
1. Escolha o trecho
Pra sua primeira viagem, escolha um trecho de 40 a 60km entre duas cidades com infraestrutura (pousada, restaurante, borracheiro). Não tente ser herói.
2. Estude o percurso
Use o Google Maps (modo bicicleta) ou apps como Komoot e Strava pra ver o perfil de elevação. Saber quantas subidas tem e o desnível total evita surpresas desagradáveis.
3. Revise a bike
Uma semana antes da viagem, leve a bike pra uma revisão ou faça você mesmo: confira freios, calibre pneus, lubrifique a corrente, teste todas as marchas.
4. Faça um treino preparatório
Nos 15 dias antes da viagem, faça pelo menos 3 pedais de 20 a 30km pra acostumar o corpo. Sua bunda vai agradecer no dia da viagem.
5. Prepare a bagagem
A regra de ouro do cicloturismo: se você acha que precisa levar, provavelmente não precisa. Leve metade do que planejou inicialmente. Peso é o inimigo número um na subida.
Acessório que faz diferença na viagem
Um item que eu considero indispensável pra cicloturismo é uma boa bolsa de selim ou quadro pra guardar ferramentas, documentos e lanches. Esse modelo tem bom volume sem pesar muito:

Dicas de segurança na estrada
- Pedale sempre no mesmo sentido do trânsito: parece óbvio, mas muita gente faz o contrário
- Use roupas claras ou com refletivo: motorista precisa te ver
- Sinalize suas intenções: estenda o braço antes de virar
- Evite pedalar no acostamento sujo: cascalho, vidro e lixo se acumulam ali. Pedale na borda da faixa quando o acostamento estiver ruim
- Não use fone nos dois ouvidos: você precisa ouvir o trânsito. Se quiser ouvir música, use só um lado
- Pare antes de escurecer: se o sol está baixando e você não chegou, procure onde parar. Pedalar à noite em estrada é muito perigoso
Minha opinião final
Cicloturismo mudou minha relação com a bicicleta. Antes eu via a bike como exercício ou transporte. Depois da primeira viagem, ela virou liberdade. Aquela sensação de chegar num lugar usando só a força das suas pernas é viciante.
Se você está pensando em fazer sua primeira viagem de bike, meu conselho é: não espere estar 100% preparado. Você nunca vai estar. Escolha um trecho curto, prepare o básico e vai. Os perrengues fazem parte da história e são justamente o que torna a experiência inesquecível.
A estrada está esperando. Bota a bike na rua e boas pedaladas.








